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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Uma outra visão da maternidade


Maternidade.



Durante um bom tempo não pensava em ser mãe.
Achava que tinha que ter um bom pai para os filhos que porventura eu viesse a ter.
O tempo passou. Esperei pelo momento certo e momento certo não veio simplesmente porque o momento certo não existe. A gente é quem faz o momento. Mas isso é apenas mais um detalhe do todo.
Nas reuniões sociais a conversa das mulheres-mães é sempre a mesma. Sempre foi assim. E sempre será assim.
Nesses encontros as mulheres falam apenas de sua prole e de seus maridos. Nunca sobre a essência delas próprias.
Há uma "realização" através de seus rebentos.
Isso sempre me aborreceu porque não havia assunto diferente desses dois num encontro de amigas, parentes, colegas e esposas dos colegas do marido.
Sempre me sentia deslocada, desde jovem ainda.
Eu tinha outras preocupações como trabalho, estudo e familia.
Minhas pequenas conquistas sempre foram muito importantes pra mim. Eu me realizava através delas.
Talvez por isso eu sempre tenha relegado a um "terceiro" plano a maternidade.
A maternidade nunca foi um sonho, ela teria sido uma outra conquista que não tinha tanta importância.
Nos últimos anos e, principalmente, depois dos 40 é que essa coisa de ser mãe resolveu ocupar um pouco dos meus pensamentos. Provavelmente por já ter conquistado estabilidade financeira e emocional.
Confesso que pensei por algum tempo na produção independente mas não seria a mesma coisa, o fato de não ter um companheiro que faça parte do processo, do inicio ao fim, não me agradava.
Em determinado momento a idéia já tinha passado e comecei a racionalizar a questão.
Me perguntava honestamente sobre filhos. Porque ter filhos?
Friamente, é raro a mulher pensar sobre isso. Uma das razões que encontrei para ser mãe talvez fosse para ser aceita num grupo ou no grande grupo social.
No trabalho é status, nas relaçoes familiares é obrigação, nas reuniões sociais é assunto para interagir com as demais mulheres.
Quando alguém te pergunta se tens filhos observa bem a expressão do rosto quando a resposta é não.
Por incrivel que pareça, ainda hoje, as mulheres tratam de discriminar aquelas que não tem filhos porque não tê-los é sinal de algum defeito. Ou és doente (coitada, não pode ter filhos), ou és doida da cabeça (onde já se viu não querer filhos?) ou solteirona (fracassada!).
Mas fracasso deve ser o fato de gerar filhos e não ser feliz com eles, ter filhos ingratos, distantes etc. A mulher vai se culpar ( psicólogos dizem que a culpa é sempre da mãe), vai ficar se perguntando eternamente "onde foi que eu errei?".
Claro que ter filho deve ser uma emoção indescritível, não digo que é frescura, talvez se eu tivesse gerado um filho também vivenciasse a mesma situação.
Tem mulheres que se arrependem de ter tido filhos mas que vivem mergulhadas no remorso e não confessam pra ninguém que gostaria de ter tido outro tipo de vida.
Ter filhos é uma exigência da sociedade, as mulheres devem se encaixar nesse perfil ou são condenadas.
Ter filhos é bom, com toda a certeza para os comerciantes que vendem adoidado no Dia das Mães. E, por tabela, no Dia dos Pais. Depois no Dia das Crianças. E não podemos esquecer o Natal e a Páscoa.
Eu entendo as mulheres desesperadas por ter filhos. Além de ser requisito para ser aceita na sociedade existe também a preocupação com futuro. Medo da solidão.
Há também o medo da solidão já no presente. Ela vai se dedicar ao bebê e a sua vida consequentemente terá sentido.
Há poucos meses atrás pensei muito fortemente em arriscar minha saúde e dispor de uma quantia razoávevl de dinheiro para produzir um bebê. Mas racionalizei esse pensamento para saber honestamente porque eu faria isso.
Ser mãe daria aos meus velhos pais um neto e acho que ficariam contentes. Eu desfilaria pelos shoppings com o bebê fofo, mostraria para a vizinhança, amigos e colegas que eu era, afinal, normal e eles me aceitariam no grupo.
Mas a maternidade, na minha idade, quarentona, é algo reprovável pela sociedade em sua maioria.
E, sinceramente, me criaria problemas porque não teria descanso agora que chego na aposentadoria. Não poderia ter uma relação tranquila com meu marido porque não teriamos mais tempo pra nós dois, não poderiamos viajar e aproveitar a velhice com a certeza de não ter horário nem dia certo pra voltar, seria cansativo apesar de já termos a maturidade e paciência que deve-se ter quando se tem filhos quando se é jovem e cheio de compromissos.
Todos, com raras exceções, torceriam o nariz, criticariam a gravidez tardia. Diriam que era para "me aparecer", "onde já se viu criar problema depois de velha, "mãe-avó" entre outros rótulos.
Honestamente me perguntei: pra quê?
Será que eu sou uma desequilibrada porque penso que ser mãe não é tão importante assim para mim?
Talvez me chamem de fria, frígida, insensivel, egoista ou sei lá mais o quê.
Não me acho nada disso, muito menos egoísta.
Egoísta seria eu se colocasse no mundo um ser que teria que ver tanta crueldade, tanta discriminação, julgamentos superficiais, valores morais totalmente distorcidos, luta diária para sobreviver só para satisfazer a sociedade e minha necessidade de ser aceita.
Me perguntei com toda a honestidade sobre isso e imaginei as mais diversas situações por que passam as mães.
Me coloquei na pele daquelas mães que perdem seus filhos muito cedo seja qual for a forma que se der a perda. É uma eterna dor.
Um eterno vazio com a mesma pergunta: e se isso tivesse sido assim e se eu tivesse feito aquilo...
Me coloquei na pele da mãe idosa e abandonada pelos filhos. E também daquela mãe sofrida, sem dormir direito, comer direito, trabalhando fora e dentro de casa e se sentindo totalmente só porque muitas vezes ser mãe é um ato solitário.
Hoje ter filhos é uma loteria, nem sempre os filhos serão teus amigos, às vezes criam-se inimigos dentro de casa.
Dizem que ser mãe é uma coisa divina e que uma vez que se olha aquele ser indefeso é um amor sem limites.
Eu sempre digo que sim, deve ser isso e muito mais. O problema é que eles crescem.
Vão crescer e  algumas mães e pais terão sorte em conseguir educá-los bem, o mundo externo não vai deseducá-los, os pais terão soberania e a mídia não vai tornar seus pimpolhos vorazes consumidores e deixar os pais "numa sinuca de bico" se não lhes comprar o tênis de tal marca, a roupa da tal loja, o celular lançamento mundial, os cadernos e provavelmente o "tablet" porque isso de caderno é ultrapassado.
A mãe terá sorte se tiver filhos compreensivos, terá sorte se não mimá-los para compensar a falta de tempo que a faz trabalhar mais de 8h por dia para sustentá-los e chegar em casa cansada e ainda ter que organizar a bagunça todo o santo dia já que os "rebentos" viraram do avesso a casa com tanta roupa espalhada e louça suja. Mas tendo saúde, dizem os conformados, tudo bem.
Mas fora esse caos que vislumbrei ao longo desses anos de vida, seja presenciando tais situações ou participando como ouvinte dos queixumes inconfessáveis de amigas e colegas de trabalho, eu fui testemunha de que existe vida lá fora, fora do caos.
Há lares bem estruturados, pais soberanos (e não ditadores) e filhos centrados. Eu vi muitas mães trabalhadoras que tinham filhos compreensivos, estudantes e também, muitas das vezes, inseridos no mercado de trabalho.
Maternidade pode ser uma coisa que dá certo mas não para todas as mulheres. Nem todas querem a mesma coisa e isso é algo que deve ser respeitado: o que deseja a mulher pra si, ser dona de sua alma e seu corpo, decidir como quer viver a sua vida sem ter que passar pela aceitação da sociedade.
Ser simplemente alguém em paz consigo mesmo.

....

Cheguei a fazer uma breve pesquisa sobre esse assunto maternidade que foi bastante interessante e gostaria de compartilhar com as mulheres que se identificarem com o meu pensamento.
Encontrei um blog sobre isso bem interessante: uterovazio.blogspot.com.

Finalmente, eu me sinto muito bem assim como sou e como estou. E não me aflige a solidão porque estou em paz e não preciso ser aceita por mais ninguém que não seja eu mesma.
De qualquer forma, meus respeitos a todas as mães do mundo até porque tenho uma maravilhosa mãe.

Às amigas um grande abraço.
Rejane



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